Pioneira na cultura do fruto “escondido” com destino à
exportação industrial, a Torriba não largou mais o amendoim. Três anos depois
preparam-se para abastecer Portugal. A partir de outubro.
Ao contrário de outros
frutos secos, a cultura do amendoim é subterrânea. Da planta leguminosa nasce
uma flor, da flor um espigão que se coloca na terra e se desenvolve enterrado.
Os registos históricos desta produção em Portugal recaem no Algarve, particularmente
em Aljezur. O amendoim é ali designado de Alcagoita. Outrora importante naquela
região, hoje sem expressão. Da criação na década de 80 de uma associação
nacional de produtores de amendoim, passou-se ao abandono do cultivo e a
organização desapareceu. Há quem ainda produza para consumo próprio e venda em
mercearias biológicas.
A única produção de
dimensão assinalável em Portugal está a quilómetros a norte do Algarve, nas
mãos da Torriba. Mas segue toda para exportação. Dentro de meses, esta realidade
vai mudar. "É um ensaio de cerca de um hectare e meio e que está a ser
feito em campos de dois agricultores nossos. Estamos a falar na ordem das seis
toneladas", revela o engenheiro Gonçalo Escudeiro, diretor executivo desta
organização de produtores de hortofrutícolas localizados essencialmente no
Ribatejo. "Vamos ter pela primeira vez amendoim com casca para
comercializar no mercado nacional. Devemos chegar em Outubro".
Criada em 1997 para dar
resposta à comercialização do tomate, a Torriba voltou-se em 2000 para a
diversificação. Da sua lista, destaca cinco produtos chapéu: o tomate, batata
para indústria, ervilha, pimento e amendoim. Gonçalo Escudeiro já ali está
desde a fundação. Trabalham com 130 agricultores. No início eram 57 e faziam aproximadamente
500 hectares. Duplicando o número de agricultores, tiveram um aumento de área
em cinco vezes.
Portugal com mais potencial que
a Roménia
A aventura no amendoim
aconteceu em 2011. Uma aventura porque está longe de ser uma cultura da região.
A multinacional de produtos alimentares e bebidas Pepsi CO, presente em
Portugal, estava à procura de parceiros numa estratégia de fomentar o
desenvolvimento da cultura na Europa e lançou o desafio à Torriba. No primeiro
ano foi feito um teste em Portugal e outro na Roménia. "O resultado correu
francamente melhor no nosso país e, a partir daí, entenderam que a Península
Ibérica poderia ser uma opção neste projeto", explica Gonçalo Escudeiro.
Perante o potencial da nossa terra, no ano seguinte experimentaram a cultura já
com o objetivo de "poder ser desenvolvida não só em Portugal, mas também
no sul de Espanha".
A atividade teve um
arranque difícil com alguma falta de adaptação das variedades. Com o acerto dos
ciclos de produção "tem sido um sucesso nestes três últimos anos e vindo a
crescer", garante. Esta alternativa localiza-se no Vale do Sorraia, no
concelho de Coruche e Vale do Tejo, nos concelhos de Almeirim, Salvaterra de
Magos e Benavente. Do núcleo fazem parte 15 agricultores.
Testadas várias variedades,
a opção pendeu para a do tipo “runner”, que tem um crescimento mais rasteiro.
Há dois anos fizeram 75 hectares, no ano passado 130 e este ano aumentam para
320. Da parceria, conseguiram mecanizar a cultura, com máquinas de colheita
provenientes dos EUA, e obter apoio de técnicos também dos EUA e ainda da
Argentina.
O amendoim pode ter outras
finalidades, como extração de óleo, rações ou até produção de plásticos. O
produto que nasce em Portugal destina-se à Holanda, para ser branqueado
(retira-se a casca e a pele castanho-avermelhada) e misturado com vários frutos
secos com vista à distribuição de snacks.
Solos a 18.º graus
Falamos de uma cultura
rústica, feita em terrenos arenosos, sendo necessária uma estrutura de regadio,
embora não precise de rega diária. “O custo para produzir anda na ordem dos
2000 a 2500 euros por hectare. É um custo muito parecido com o da produção de
milho", salienta o diretor da Torriba. Quando as temperatura dos solos
rondam os 18.º graus assumem a temperatura ideal para que as sementes germinem.
Normalmente, as
sementeiras ocorrem entre abril e maio, sendo colhidos em finais de setembro e
início de outubro. É importante que o amendoim não sofra com a chuva, por isso,
um dos segredos é que só pode ser arrancado seco. Esta cultura apresenta
vantagens sustentáveis: pode entrar na rotação com outras culturas e como fixa
o azoto atmosférico através das raízes, consegue distribuir os nutrientes e
praticamente não necessita de adubos, sendo melhoradora do solo.
A variedade que vai chegar
ao mercado nacional é a do tipo virgínia, um amendoim maior, próprio para a
comercialização do produto com casca.


